Show do Chico parte I

Sonhos, sonhos são

          No começo de uma noite, no fim do mês de julho. Passeava pela internet, vi uma foto do Chico num site, e a manchete era perturbadora: “Chico Buarque volta aos palcos”. Um nervosismo enorme tomou conta de mim. Há anos eu espera por essa notícia, de repente um sonho se materializava. Desconectei eufórico ,  quase pulava de ansiedade.

 Só que depois da euforia, veio a preocupação. Não seria nada fácil ir para esse show, afinal eu moro em Belém,e o show seria em São Paulo. Liguei pra mamãe, implorei a ela para ir vê o show, e ameacei-a de fazer análise caso não fosse. Heroicamente ela disse “sim”. Minha mãe é o horizonte...

Nos primeiros dias de agosto recebi um e-mail da mamãe. Ela escreveu que havia comprando os ingressos e a passagem de ida, e o papai a de volta. “Meus pais...”. Era sério mesmo! E apesar da certeza, o show ainda me parecia uma coisa distante.

Embarquei rumo a Sampa no dia 2 de setembro, mesmo cruzando o céu do país, não conseguia visualizar o show. Do alto via paisagens desconhecidas, e finalmente a gigante São Paulo apareceu.

Com os pés no chão, fui recebido com sorrisos, abraços e fotos pela mamãe e a Samira, uma amiga muito legal dela. Passamos o fim de semana passeando pela terra da garoa. Depois fomos para Campinas, cidade onde a mamãe está morando atualmente, pois está fazendo doutorado na Unicamp.

Na véspera do grande dia, fomos para casa da Mônica, outra amiga muito legal da mamãe . Foi uma noite regada a vinho, histórias e risadas. Quando finalmente, já no fim da madrugada eu deitei, caiu a ficha, “é hoje”. Nem deu tempo de ficar tenso ou refletir. A embriaguez pôs um breve fim a inquietude,  dormi.

Enfim chegara o tão sonhado dia, era 7 de setembro de 2006. Eu acordei com uma ressaca infernal, e aquele frio na barriga, como se tivesse na descida de uma montanha-russa. Andava freneticamente em ciclos, deitava às vezes e tentava relaxar, porém era como deitar numa rede pendurada entre dois arranha-céus.

No fim da tarde eu ainda estava nervoso, me arrumei com a “roupa de domingo”. A mamãe assustava com seu cansaço, devido à ressaca. Por volta das seis horas da tarde saímos eu, mamãe e Mônica, rumo ao show...

Na marginal pinheiros, vi a placa gigante com foto do Chico, era o tom Brasil, era o grande palco, era o “onde”. Cruzamos o portão. Encabulado eu via aquele lugar com um olhar infantil, como se ali fosse o céu e um super-herói estivasse para passar voando, ou melhor cantando.

Entramos,  logo vi o palco e abri aquele sorriso. Pedi um copo de vodka pura pra relaxar um pouco, e olhei para mamãe, meus olhos a agradeciam. Eu estava ali graças a ela, ah minha mãe...

O violão estava solitário no palco, mas parecia dar choque, de tanta que era a energia. Eu estava concentrado, ansioso, e sobretudo feliz.

 As luzes se apagaram...

 

 



Escrito por Maurício às 16h39
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Show do Chico parte II

                                          Cerzi o show na alma.

Chico!! Chico!!! Chico!!! Chico!!!!

É meus caros amigos, ele entrou e casou frenesi no público. Eu fiquei paralisado de felicidade neste momento. Era o meu ídolo que estava lá, como eu costumo dizer brincando: “meu mestre”.

E lá estava aquele ser no palco, e os primeiros acordes se ouviram depois das palmas. Mais que perfeito. Chico Buarque de Holanda voltara a cantar. Meus olhos úmidos, não perdiam um movimento, meus ouvidos encantados não perdiam um único som. Cerzi o show na alma.

A banda era maravilhosa, digna do grande Chico. O som se reinventou para mim. Aquela voz que ouvira desde a barriga da minha mãe, e certamente se escutava quando fui feito, ecoava poderosa pelo salão.

Cantei, cantei com um fervor quase religioso ou de uma militância exacerbada . A cada música a emoção explodia. A cada pausa minhas mãos se batiam com tanta força, de tal maneira que, sentia que estavam dando choque. Eu me esgoelara gritando: “Chico!! Chico!!! Chico!!! Chico!!!!”. Não chorei, porque enfim, as barreias sociais e sobriedade só permitiram os olhos úmidos, as lágrimas voltavam.

           As músicas dançavam sobre mim, e “de noite raiva o sol que todo mundo aplaudia”. Foi extraordinário. Sonhara com aquele momento desde que Joana me encantou. Eu realmente estava ali, e ali eu sei que fui feliz.

          No repertório estavam todas as músicas do novo cd, mais algumas músicas de outros álbuns. Uma canção puxava outra, pareciam irmãs, e realmente são. Os arranjos surreais, as letras geniais. Ah, como era bom! Chico, seu violão e a banda, é outro nível. O melhor show que eu já mirei.

          Chico saiu do palco. O público de pé aplaudindo. eu me esgoelando ainda mais alto e quase quebrando as mãos com as palmas. Chico de volta ao samba, o público dançava. Depois do segundo bis, João e Maria se despediram.

Acabou?

Não, Chico realmente saiu daquele palco, mas na minha mente o show se estenderá para sempre. Toda vez que eu escuto uma música do Chico, e às vezes enquanto durmo, ainda me sinto naquele show.

Quando saímos do show, eu ainda me sentia entre dois arranha-céus. Só que não havia mais rede, eu flutuava. Já no carro, escutávamos o cd “carioca”, a mamãe e a Mônica brincavam com o meu sorriso, que estava fixo. Elas já deviam imaginar que eu ainda estava no show.

No ano 3001, quando reencarnado num corpo estranho, eu irei fazer umas regressões espíritas. Certamente em uma das voltas, reviverei aquela noite do dia 7 de setembro de 2006. E vou falar pras pessoas: “Eu já vi um show do Chico Buarque, aliás eu nunca mais saí dele”.

E

FIM



Escrito por Maurício às 16h39
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